Seu Instagram reflete a sua vida?

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Tenho meu Instagram desde 24 de Dezembro de 2012. Parece muito tempo, mas são só 386 publicações até o momento. Entrei tardiamente na rede, não sabia o que estava perdendo. Tenho certa resistência a coisas novas e também de acabar refém da tecnologia. Acredito que já nasci com espirito de idoso.

Quando cadastrei minha conta, o objetivo dessa rede social era compartilhar o que se estava vivendo naquele instante. Diferente de Facebook e Orkut que tínhamos o costume de criar álbuns temáticos depois que já tínhamos vivenciado tal coisa – Férias na praia 2012.

Vira e mexe eu dou uma fuçada no meu perfil, olho todas as fotos até chegar na primeira e consigo identificar certinho as fases que eu passei. Saindo bastante com uma que amiga estava na cidade, aproveitando as férias de segunda à segunda, depois focada na faculdade, quando passei um mês fora visitando meus pais, a fase em que estava mais caseira e a volta às baladas. Por mais que eu saiba toda a minha própria história, é legal ver esses quatro anos registrados, os lugares, as pessoas, as legendas, as emoções.

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Olhando esse feed, o das minhas amigas e de outras pessoas é possível acompanhar outras grandes mudanças. Da própria rede e da forma como lidamos com ela e talvez até com a própria vida.

No inicio as fotos eram pouco pensadas, para mostrar apenas aquele instante mesmo. Era legal brincar com os poucos filtros e alterar a cor das fotos. Todo mundo usava aquelas bordas horrorosas e era sempre difícil fazer a foto caber naquele quadrado sem cortar nada importante. Tinham fotos em casa e da cama apenas com a televisão ao fundo com uma legende de tédio. Tinham as frases e as indiretas, do tempo em que ainda não existia o Chapolin Sincero.

Com o tempo as fotos começaram a ser mais pensadas, mostrando bem o que estava ao fundo e paisagens. Logo vieram as fotos de espelho e em seguida as selfies. Com isso vieram as preocupações com pose, iluminação e beleza. Os filtros já não eram mais suficientes e precisamos de aplicativos auxiliares para editar as fotos.

Os instantes passaram a sumir, as fotos bonitas começaram a dominar o feed e passamos a pensar se deveríamos ou não postar tal foto. Se estava bonita ou se ia gerar muitos likes. A espontaneidade caiu pela metade.

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Com a chegada dos famosos e perfis comerciais, o espirito do Instagram mudou. Ele deixou de ser nosso álbum de fotografias, algo pessoal. Passou a ser algo que usamos para ver e seguir os outros. Passou a ser algo que precisa ser pensado para ser mostrado. As fotos profissionais, com edições perfeitas, looks do dia e lugares incríveis se tornaram maioria. Pessoas começaram a ganhar muitos seguidores, passaram a ter uma certa fama e uma vida virtual invejável. Passamos a dizer que o Instagram era uma rede de inspiração, mas isso está lá no Pinterest. O Insta se tornou um lugar onde invejamos mesmo e não mostramos mais quase de nada.

De se preocupar com as fotos, agora também nos preocupamos com a harmonia do nosso feed pessoal. As fotos precisam combinar entre si. Uma foto de tédio na cama não é mais uma simples foto de tédio na cama. Agora ela precisa de um edredom branquinho, uma xícara de chá e meias fofinhas. A espontaneidade caiu a zero!

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Já faz algum tempo que tenho postado muito pouco, menos de uma vez por semana, mas continuo olhando diariamente. Apesar de não ter entrado nessa de feed harmonioso, não vejo mais linearidade nele e que possa acompanhar a fase que estou. São apenas algumas fotos soltas, postadas com um espaço grande de tempo entre si e que julguei estarem boas. Não existe mais um história no meu perfil. A minha história.

Por que estamos olhando muito e registrando tão pouco? Não achamos nossos registros dignos de serem postados? Compartilhados? Nossos instantes não são mais interessantes? A concorrência está grande e não vamos ganhar muitos likes? Só vale a pena registrar algo se muitas outras pessoas gostarem daquilo? Aprovarem? Não estamos mais postando nas redes sociais por que estamos vivendo mais aqui na vida real?

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Agora entramos no Instagram para acompanhar pessoas que não conhecemos, ver instantes que não são espontâneos e querer uma vida que não é nossa. Acompanhamos tudo isso desejando essas vidas. Mas elas não são exatamente vidas. São perfis montados, patrocinados e editados. Nosso perfil não reflete mais nossas vidas, o dessas pessoas também não. Desejamos algo que nem sequer é real.

O Instagram parece que perdeu sua essência, será que nós também?

Psicóloga, apaixonada pela confusão da mente humana. Vive para comer bem e sonha em adotar todo os cachorros abandonados do mundo. Além de trazer as novidades de moda e beleza, também quer te fazer pensar sobre as coisas da vida!

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